• A METAFÍSICA DO CONCRETO
  • ALTERNATIVAS DE MODERNIDADE POR JAMES HOLSTON
  • AMBIENTES ATMOSFÉRICOS E MATERIAIS NO CINEMA DE MICHELANGELO ANTONIONI
  • ARQUITETURA DE RAIOS X
  • ARQUITETURA OU TECNO-UTOPIA?
  • BADIOU, ALAIN – LÓGICAS DOS MUNDOS
  • BEHRXILIA
  • BRASIL
  • BRASÍLIA, CONTRADIÇÕES DE UMA NOVA CIDADE
  • BRASÍLIA, OU A VISTA A PARTIR DE UM AUTOMÓVEL EM MOVIMENTO
  • BRASILIANIZAÇÃO DE BRASÍLIA
  • CAMINHANDO NO ESPAÇO
  • CARACTERES / PERSONAGENS
  • CARQUITETURA
  • CIDADE ECLÉTICA
  • CINEMA
  • CONCEITOS CONTRASTANTES DE HARMONIA NA ARQUITETURA
  • CONFLITO DAS VELOCIDADES VARIADAS
  • CORPOS EM ALIANÇA E A POLÍTICA DA RUA
  • CORPOS INFORMATICOS
  • CULTOS  
  • CUPINS
  • DE OUTROS ESPAÇOS: UTOPIAS E HETEROTOPIAS
  • DEEPFAKE  
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  • DUPLITETURA
  • FÁBULA DE UM ARQUITETO
  • FICÇÕES DE TODOS OS TIPOS
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  • ISOMORPHISM
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  • NIEMEYER: O FUTURO É GRUMOSO
  • O ARQUITETO COMO UM SER TOTALITÁRIO
  • OPERAÇÃO DOM BOSCO
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  • SINTAXE ESPACIAL
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  • TEMPO DE BRASÍLIA
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  • UMA FICÇÃO DO MODERNO, POR LOUIDGI BELTRAME
  • UMA MÁQUINA DE MORAR
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  • VILLE RADIEUSE – A CIDADE RADIANTE
  • VLADIMIR CARVALHO
  • WHITE HEAT, GREY STONE
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  • YOKAANAM, MESTRE
  • ZAMENHOF, LÁZARO LUIZ
  • ZIZEK, SLAVOJ: O FIM DA UTOPIA
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  • Z
...A.

A METAFÍSICA DO CONCRETO

Em Wells, Hitler e o Estado Mundial (1941), George Orwell usa o seguinte contraste: “De um lado, ciência, ordem, progresso, internacionalismo, aviões, aço, concreto, higiene; do outro lado, guerra, nacionalismo, religião, monarquia, camponeses, professores de grego, poetas, cavalos.”

George Orwell não está só ao considerar o concreto um material moderno. É muitas vezes um componente importante na arquitetura moderna, pois permite construções que seriam praticamente impossíveis com outros materiais.

http://blogs.ucl.ac.uk/events/2012/02/27/the-metaphysics-of-concrete/

ALTERNATIVAS DE MODERNIDADE POR JAMES HOLSTON

A prática ritual no Vale do Amanhecer revela um conjunto detalhado de correspondências entre capitais sagradas e seculares. Ambas expressam suas ambições através das linguagens da moderna institucionalização do poder. A partir da burocracia, das leis, da ciência, do ensino superior e das telecomunicações, elas implementam conjuntos similares de vocabulários, estruturas e procedimentos especializados. Da linguagem da burocracia, ambas usam noções de ministro, ajudante de ordens, diretoria, conselho, petição, assinatura e assim por diante, a fim de articular gabinete, organização, autoridade e procedimento. Da linguagem da lei, ambas instituem tribunais e prisões em que interagem juízes, jurados, promotores, advogados de defesa e testemunhas, em nome da justiça. Ambas compartilham, também, um vocabulário de indústria e telecomunicações, que inclui radar, antena, espaçonaves, fábricas, correntes e sintonias. Ambas apresentam seus conhecimentos mais profundos em termos de ciência, empregando conceitos como energia, ectoplasma, ionização e campos magnéticos. Ambas têm universidades que oferecem graduações avançadas nesses conhecimentos. Ambas legitimam seu empreendimento em termos de uma recapitulação da história que anuncia uma nova era.

Desse modo, elas são estruturadas por uma relação modelo-cópia. Cada qual deriva sua força persuasiva de sua capacidade para demonstrar um modelo em desenvolvimento em suas próprias construções, sobretudo em rituais e na arquitetura, respectivamente. Assim, Brasília não apenas imita o modelo de uma cidade modernista à maneira de Le Corbusier ou do CIAM. Ao se tornar sua mais completa realização, ao digeri-la, por assim dizer, o modelo torna-se brasileiro, usando-se a noção antropofágica de ingestão (antropofagia) com a qual o modernismo literário brasileiro da década de 1920 definiu novas formas de identidade nacional em relação ao mundo metropolitano. Ao digerir Le Corbusier (o filme brasileiro de 1971, Como Era Gostoso o Meu Francês, vem à mente), Brasília espelha para o Brasil a nação moderna imaginada que sua construção pretendia trazer à tona. Seu Plano Piloto é a prova das habilidades do Estado para criar algo novo, capturar a modernidade – suas instituições, formas de conhecimento, modos de poder e futuro radiante – por meio de sua semelhança. A cópia se torna um original.

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AMBIENTES ATMOSFÉRICOS E MATERIAIS NO CINEMA DE MICHELANGELO ANTONIONI

“Esses momentos cinematográficos roubados revelam a construção, por Antonioni, de uma mistura muito hábil entre ambientes materiais e atmosféricos ao longo de todos os seus filmes. Como tive a oportunidade de escrever antes, pode-se provavelmente dizer que O Deserto Vermelho incorpora o paroxismo de tal diálogo. No entanto, a essência de seu materialismo é encontrada na presença do corpo humano feminino que, por sua postura, contrasta e desafia esse ambiente.”


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ARQUITETURA DE RAIOS X

A ideia de arquiteto como curandeiro remonta a Vitrúvio. A saúde sempre foi uma responsabilidade fundamental para os arquitetos. O que mudou foi o conceito de saúde. Estou argumentando que a arquitetura moderna está organizada em torno de uma nova teoria da saúde, e essa teoria pode ser vista em todas as polêmicas que promovem a arquitetura moderna. Prefiro usar o termo “publicidade” ao termo “marketing”. A publicidade moderna diz respeito à forma como a arquitetura moderna foi apresentada, e à retórica que foi implantada, que tinha muito a ver com o medo de doenças. Por exemplo, em seu livro A Cidade Radiante (1933) Le Corbusier descarta o “solo natural” como um “dispensador do reumatismo e da tuberculose” e declara que é “o inimigo do homem”. Ele insiste em usar pilotis para destacar a casa do “solo molhado, úmido, onde a doença se reproduz”, e em usar o telhado como um jardim para banho de sol e exercícios. Arquitetos de vanguarda das primeiras décadas do século XX, de Le Corbusier a Jan Duiker ou Richard Neutra, apresentaram sua nova arquitetura como uma espécie de equipamento médico para proteger e melhorar o corpo. Os edifícios até começaram a parecer com raios X, revelando os segredos em seu interior. Pense no projeto de Mies van der Rohe para o Arranha-Céu de Vidro na Berlim de 1922, com seu esqueleto exposto. Não foi por acaso que Mies coletou e publicou raios-X. Apresentar a arquitetura moderna como uma máquina para a saúde foi uma resposta aos medos verdadeiros da época. O medo da doença era mais importante para as pessoas do que a suposta beleza de uma parede branca moderna. Médicos e enfermeiros, antes dos arquitetos, recomendariam que as pessoas com tuberculose se livrassem de cortinas, tapetes e ornamentos e, em vez disso, usassem uma cama e uma mesa simples – fácil de limpar e mais difícil para a poeira se acumular.

Beatriz Colomina: https://www.frieze.com/article/x-ray-architecture

ARQUITETURA OU TECNO-UTOPIA?

A ficção não é apenas escapar da realidade, mas pode produzir uma retirada engajada. Foucault comentou sobre essa qualidade em seu próprio trabalho, observando: “Tenho plena consciência de que nunca escrevi nada além de ficções”. E sobre a importância da ficção, ele prosseguiu: “Porém eu não quero dizer que a verdade esteja, por isso, ausente. Parece-me existir a possibilidade de que a ficção funcione dentro da verdade, de que um discurso ficcional introduza efeitos de verdade, e faça com que um discurso verdadeiro engendre ou fabrique algo que ainda não existe, ou seja, que o ficcione. Ficciona-se a história, com base em uma realidade política que a torna verdadeira, e ficciona-se uma política que ainda não existe, com base em uma verdade histórica.” Étienne Balibar e Jacques Rancière também se voltaram, recentemente, às virtudes políticas de se construir ficções. Para Balibar, isso gira em torno da necessidade de identificar, através da experimentação e da experiência, “lugares de ficção” para a vida política diante da extinção de noções de utopia. Para Rancière, de modo similar, a ficção oferece um espaço de projeção que é menos utópico que virtual. Como ele explica: “Política e arte, como formas de conhecimento, constroem ‘ficção’, ou seja, rearranjos materiais de sinais e imagens, relações entre o que é visto e o que é dito, entre o que é feito e o que pode ser feito”.

# ARCHITECTURAL THEORIES /// Architecture or Techno-Utopia by Felicity Scott

.B.

BADIOU, ALAIN – LÓGICAS DOS MUNDOS

“Consideremos, por exemplo, a cidade de Brasília, capital artificial do Brasil, a qual podemos pensar como uma cidade ‘pura’, já que se ergueu do nada – planalto nu em 1956, inaugurada em 1960. O que significa dizer que Brasília é um lugar, um espaço? Em primeiro lugar, claro que sabemos o que significa dizer ‘morar em Brasília’ ou ‘vir a Brasília’. Assim, há um conjunto referencial, o conjunto de elementos que constituem Brasília. O interior deste conjunto referencial é a própria ‘Brasília’. Se estou ‘na cidade’, é porque faço parte da composição instantânea de Brasília; que um lugar exista significa, primeiro, que um múltiplo é dado, de modo que seu interior seja idêntico a si mesmo. Lidando, como estamos, com a totalidade referencial ‘Brasília’, com o sítio global de localizações, podemos afirmar o seguinte: o interior de Brasília é Brasília.”

Em Brasília, são os edifícios, colunas, portas e mesas que funcionam como interior para o mundo Brasília, ainda que sejam importados de outros locais. A Brasília de Badiou é um mundo (não um armazém) devido a uma singularidade orientadora que indexa as multiplicidades e contingências da cidade.

“À noite, enquanto me perdia, eu costumava imaginar – pelas janelas de sacada de um apartamento na Asa Sul de Brasília, na clareza serena do céu – que a cartografia dos signos estelares, cujos contornos terrenos os monumentos da cidade pareciam traçar, estava me dizendo que eu ficaria lá para sempre. O pássaro estendido sobre o solo seco, as lagoas lunares, o cimento estilizado de Niemeyer: tudo me dizia que os fragmentos de Brasília, abertos dessa maneira e me orientando durante a noite, me haviam incorporado ao nascimento de um novo mundo.” (Lógica dos Mundos)

BEHRXILIA

As perguntas que têm que ser feitas sobre Brasília são: “O que deu certo?” e “O que deu errado? O que restou do sonho original? Como Brasília se adaptou a essas ideias modernistas? Qual é a mensagem de Brasília? O que resta que é bom? O que resta que é ruim? O que valeu a pena? O que não valeu a pena?” Acho que essas são as perguntas que têm que ser feitas, “O que funcionou e o que não funcionou em Brasília”.

Brasília foi um experimento socialista em uma sociedade capitalista, e eu queria apontar aqui a generosidade dos criadores de Brasília, que pensaram longe, que pensaram alto, que pensaram bem, buscando uma sociedade mais igualitária, com menos diferenças sociais etc. Eu queria enfatizar essa generosidade dos criadores de Brasília. E o que resultou de tudo isso é que Brasília é uma tentativa de fazer algo diferente, de fazer/inventar uma nova proposta de vida, para viver. Então Brasília é o que restou de uma tentativa. Quase nada, porém, restou da utopia, talvez pouco ou quase nada além da proposta de uma utopia, a própria possibilidade de sonhar.

BRASIL

Os brasileiros afirmam ter inventado o avião, a máquina de escrever, o raio-X do tórax. Eles alegam ter descoberto o méson-pi, lutado contra o Triatoma megistus e descoberto os Ultra-terrestres. Eles construíram Brasília, queimaram a Amazônia, foram os campeões mundiais.

BRASÍLIA, CONTRADIÇÕES DE UMA NOVA CIDADE

Encomendado pela fabricante italiana de máquinas de escrever Olivetti, em 1966, a fim de exibir a construção da recém-concluída capital moderna do Brasil, Brasília (e que, em seguida, prontamente arquivou a obra concluída, talvez devido a seu implícito questionamento crítico), o primoroso, articulado e apaixonado filme de Joaquim Pedro de Andrade, Brasília, Contradições de uma Cidade Nova é, como o próprio nome sugere, um conto de duas cidades: uma, um paradigma para a integração racial e social e a vida urbana progressista; a outra, uma terra prometida idealizada inatingível (e inacessível) de emprego ilimitado à qual só se pode chegar mediante o embarque em ônibus rurais lotados ou por viagens diárias a partir das favelas vizinhas que brotaram ao longo dos limites da cidade, abrigando outros trabalhadores migrantes pioneiros que, anos antes, fizeram a mesma jornada em busca de oportunidades similares. Um passeio pelo sistema de tráfego em grade cruzada da cidade, descrito como a intersecção de dois eixos principais (que implicitamente formam uma marca em forma de ‘X’), fornece uma astuta introdução ao projeto urbano inovador da cidade, relegando o posicionamento de cemitérios às periferias dos eixos principais, de modo que as procissões fúnebres (e, simbolicamente, a morte) jamais atravessem o principal cruzamento da cidade. Justapondo a arquitetura totalmente moderna de Brasília e a construção meticulosa de comunidades planejadas com entrevistas de operários vivendo em moradias improvisadas, trabalhadores itinerantes vindos de outras regiões que deixaram suas famílias para trás a fim de trabalhar nos projetos de construção em andamento na cidade, e funcionários de baixo escalão do serviço público que foram forçados a realocar suas famílias, muitas vezes numerosas, em apartamentos apertados devido à centralização dos escritórios do governo na nova capital, de Andrade reforça a dicotomia de urbanização e gentrificação como processos intrínsecos de segregação socioeconômica institucionalizada (tema que também surge no filme
En Construcción, de José Luis Guerín).

BRASÍLIA, OU A VISTA A PARTIR DE UM AUTOMÓVEL EM MOVIMENTO

Ao passo que durante as crises econômicas essas utopias existiam apenas no papel, o sonho da cidade ideal moderna tornou-se realidade na prosperidade da década de 1950. Quando foi encomendada ao urbanista brasileiro Lucio Costa, em 1957, a concepção da nova capital brasileira a partir do zero, ele combinou as ideias de Le Corbusier e Wright. O plano para Brasília se assemelha ao de um avião e, permeada por áreas verdes, a cidade foi projetada de tal forma que deveria ser navegada principalmente de carro e ser vista pela janela do carro. Naquela época, a visão a partir de um automóvel em movimento se tornou, de fato, um princípio do planejamento urbano. Kevin Lynch capturou a essência dessa tendência em seu livro A Imagem da Cidade (1960), no qual ele ilustrou como as cidades industriais americanas, como Jersey City e Los Angeles — tão cheias de contradições e totalmente definidas pelo tráfego automobilístico — poderiam ser percebidas como fenômenos estéticos e ser articuladas em um contexto de planejamento.

BRASILIANIZAÇÃO DE BRASÍLIA

[…] Brasília não é uma cidade perfeita e, como todas as cidades, tem aspectos que não funcionam. Como em todos os lugares do Brasil, existem desigualdades, bem como exclusões espaciais e a frustração com o ritmo lento da necessária transformação. O que é mais interessante, contudo, é como os brasileiros se adaptaram a esses desafios, e como trouxeram consigo tradições brasileiras de todo o país para Brasília, ao mesmo tempo em que se desenvolviam novas práticas urbanas. Também como em todos os lugares do Brasil, bares espalham suas mesas nas calçadas, e a vida social floresce em espaços públicos — só em Brasília isso se dá dentro de um rico desenho modernista que se estende ao longo da planície brasileira. De fato, em nossas explorações da cidade, descobrimos que o povo abrasileirou Brasília.

The Brazilianization of Brasilia https://quod.lib.umich.edu/j/jii/4750978.0014.214?rgn=main;view=fulltex

.C.

CAMINHANDO NO ESPAÇO

Eles vêm em naves espaciais, laboratórios de outra dimensão, invisíveis aos nossos olhos,
movendo-se com precisão, mas agindo como portais de desintegração do espaço,
transportando energias poderosas destinadas a vários pontos do universo.
Na Terra, eles estão situados à beira do abismo.

CARACTERES / PERSONAGENS

De O Poema do Ângulo Reto, por Le Corbusier

Eu sou um construtor
de casas e de palácios
vivo entre os homens
em meio a sua teia emaranhada
de ser.

Fazer arquitetura é
fazer uma criatura. Ser
pleno preencher-se ter preenchido
a si mesmo estourar exultar
frio como gelo em meio às
complexidades tornar-se um jovem
cão feliz,
tornar-se ordem.

As catedrais modernas
serão construídas sobre este
alinhamento de peixes
de cavalos de Amazonas
constância retidão
paciência espera desejo
e vigilância.

Emergirá eu posso senti-lo
o esplendor do concreto bruto
e a grandeza que foi
essencial para imaginar o casamento
de linhas
pesando as formas
Pesando…

CIDADE ECLÉTICA

A Cidade Eclética é mais antiga que Brasília, mas não por muito. Foi fundada em 1956, quando os discípulos do autointitulado messias Mestre Yokaanam (anteriormente, Tenente Oceano de Sá, da Força Aérea Brasileira) o seguiram até a região selvagem do Planalto Central, poucos meses antes que a construção da nova capital tivesse início. Membros da irmandade gostam de sugerir uma ligação causal entre os dois eventos, mas se fazia parte do plano de Yokaanam trazer a capital nacional junto com ele quando deixou o Rio de Janeiro, esse foi apenas um pequeno primeiro estágio no caminho para um objetivo muito mais ambicioso: estabelecer aqui o núcleo de uma grande civilização global, governada pela justiça cósmica e pelo amor.

Yokaanam recebeu a tarefa um dia em 1944, em meio a um voo de rotina sobre a região central do Brasil, quando uma entidade misteriosa apareceu para ele e lhe contou sobre o glorioso destino que o esperava no chão diretamente abaixo. Na época, os planos futuros do jovem piloto não incluíam fazer a vida no meio do nada, e ele disse à entidade misteriosa exatamente isso. O ser não respondeu, mas quase instantaneamente Yokaanam viu seu avião mergulhando de cabeça para um encontro próximo com a terra prometida, e quando ele despertou em uma cama de hospital, reconsiderou sua relutância. No dia seguinte, ele começou a se preparar para a mudança.

Contudo, não foi apenas a pressão de poderes superiores que deu ao projeto de Yokaanam sua urgência. Como muitas pessoas em contato próximo com as dimensões psíquicas desde então, ele foi informado de que o planalto central do Brasil estava entre as poucas regiões da Terra marcadas para isenção dos terremotos, inundações e pestilências que inaugurariam a vindoura era da abundância espiritual. E ele sabia de fonte segura, também, que esses tempos finais estavam se aproximando rapidamente, sob a forma de um enorme planeta, 300 vezes maior que o nosso, flutuando silenciosa e invisivelmente a caminho da Terra para uma quase colisão que varreria para o espaço os dois terços menos psiquicamente evoluídos da humanidade, e daria início à grande transição.

“Naqueles dias, isso era algo que seria dito por uma pessoa louca, um maluco”, diz o Irmão Myron com a calma alegre que marca cada um de seus pronunciamentos. “Mas hoje, acredito que os cientistas adquiriram algumas informações sobre esse planeta. A própria NASA, se não me engano, agora sabe disso, e parece que eles até lhe deram um nome – Barnard I.”

Se às vezes o Irmão Myron soa (e, mesmo em suas vestes de profeta, parece) menos como um espiritualista devoto do que como um tecnocrata de bolso protegido, afeito a factoides, não é surpresa, nem mesmo uma grande contradição: antes que uma voz interior o convocasse para a Cidade Eclética, quatro anos atrás, ele estudou e trabalhou como economista e, no final das contas, a mudança de carreira não foi tão radical quanto possa parecer. Durante décadas, os engenheiros sociais brasileiros se debruçaram obsessivamente sobre os indicadores econômicos, procurando desesperados por um caminho para sair da servidão da dívida externa e do subdesenvolvimento crônico, e para alcançar a prosperidade soberana há muito prometida pelos abundantes recursos naturais do Brasil. A busca de Myron não é muito diferente, com a notável exceção de que ele realmente encontrou o caminho, e sabe que segui-lo é apenas uma questão de esperar, atenta e virtuosamente, que o plano cósmico se manifeste.

E ele se manifesta. O espírito do Mestre pode ter partido de seu corpo magro e grisalho há mais de sete anos, mas a cada novo peregrino que segue uma voz interior até o Planalto Central, a missão de Yokaanam fica mais perto de ser concluída. Para aqueles que nela vivem, a Cidade Eclética, por meio de sua existência contínua, prova o que a grandeza futurista de Brasília apenas indica: um dia o Brasil será o líder das nações do mundo, humilhando as grandes potências do Norte de hoje. Um dia, a cidade de Nova York, e todos os bancos aos quais o Brasil vendeu sua alma econômica por uma chance de se tornar um jogador no cenário mundial, restará submersa abaixo das ondas do salto cataclísmico para a Era de Aquário, enquanto Brasília brilha intocada e segura, um refúgio para a elite iluminada que está se reunindo ali, mesmo agora.

“Sim, todos vocês são o Primeiro Mundo”, diz Myron, apontando um sorriso sereno para seu visitante americano. “E nós aqui somos o que vocês chamam de Terceiro Mundo. Muito bem. Mas um dia ” – e aqui sua serenidade se esforça para suprimir uma alegria travessa – “um dia tudo isso vai mudar”.

Julian Dibbell, “Tropical Millenium”

CINEMA

“E se, desde seu início, o cinema tivesse sido — e ainda fosse — precisamente uma forma de organizar massas de seres humanos em processos de imaginação, produção e intercâmbio de histórias e imagens que, a um só tempo, solicitam nosso senso de futuridade enquanto extinguem nossas esperanças de que possamos ser, nós mesmos, agentes desse futuro? O cinema nos torna modernos, e o faz nos anunciando que o futuro já está aqui, então, naturalmente, o que em geral segue esse futuro-que-já-aqui é nada menos que apocalipse – um apocalipse que só podemos imaginar que se resolva a nosso favor através de algum tipo de retorno heroico a um remoto passado edênico, reconhecível, ainda que reconfigurado.

O cinema implanta as tecnologias de nossa destruição final nos próprios meios pelos quais criamos nossos sonhos e fantasias: de que outra forma podemos explicar o fato de que ninguém parece notar que A viagem à Lua, de Meliès, encena um conflito racial maciço e apocalíptico como seu desfecho, ou que Interestelar e seus milhares de antecedentes situam o futuro como a destruição e a reprodução simultâneas das relações sociais que definiram nosso (fantasioso) passado pitoresco e rural? O cinema solidifica, em torno de seus heróis e heroínas individuais, precisamente essa óbvia recusa da ideia de um futuro coletivo e co-criado.

Então, quando nos preocupamos quanto ao futuro do cinema, nos preocupamos quanto ao futuro daquilo que produz, no próprio cerne de seu ser, um futuro não-futuro. Nós nos preocupamos quanto ao futuro dessa coisa que não tem futuro, a qual constantemente nos pede para imaginar, financiar, criar e exibir uns aos outros esse não-futuro, essa morte ambulante do nosso passado imaginado.”

23 Fragments on the Future of Cinema

CONCEITOS CONTRASTANTES DE HARMONIA NA ARQUITETURA

http://www.katarxis3.com/Alexander_Eisenman_Debate.htm

Trecho do debate de 1982 entre o arquiteto modernista Christopher Alexander e o designer desconstrutivista Peter Eisenman de “Contrasting Concepts of Harmony in Architecture

“CA: Eu realmente acredito que a história da arquitetura nas últimas décadas tem sido uma história de tentar, específica e repetidamente, evitar qualquer tipo de sentimento primitivo.

PE: Esta é uma coincidência maravilhosa, porque eu também estou preocupado com o assunto dos telhados. Deixe-me responder isso de uma maneira muito profunda. Eu argumentaria que o telhado inclinado é – como aponta Gaston Bachelard – uma das características essenciais da “ideia de casa”. Foi a extensão da estrutura vertebrada que abrigou e circundou o homem. Michel Foucault disse que, quando o homem começou a estudar o homem no século XIX, o homem foi deslocado do centro. A representação do fato de que o homem já não era o centro do mundo, já não era o árbitro e, portanto, já não controlava artefatos, refletiu-se em uma mudança do tipo de estrutura com centro vertebrado para aquela com o centro como vazio. Aquela distância, que você chama de alienação ou falta de sentimento, pode ter sido apenas um produto natural dessa nova cosmologia.

A estrutura não vertebrada é uma tentativa de expressar aquela mudança na cosmologia. Não é uma questão meramente estilística, ou que vai contra o sentimento, ou a alienação que o homem sente. Quando o homem começou a estudar a si mesmo, ele começou a perder sua posição no centro. A perda do centro é expressa por aquela alienação. Seja ou não entendido pela arquitetura moderna, o que o Modernismo estava tentando explicar por meio de sua forma era aquela alienação. Agora que a tecnologia se tornou algo desenfreado, talvez precisemos repensar a cosmologia. Podemos retornar a uma cosmologia de antropocentrismo? Não estou convencido de que seja adequado.

Le Corbusier certa vez definiu a arquitetura como tendo a ver com uma janela, a qual é ou muito grande, ou muito pequena, porém nunca do tamanho certo. Uma vez que tivesse o tamanho certo, já não funcionaria. Quando ela é do tamanho certo, aquele prédio é apenas um prédio. O único jeito na presença da arquitetura que é aquela sensação, aquela necessidade por algo diferente, quando a janela era muito grande ou muito pequena.

CONFLITO DAS VELOCIDADES VARIADAS

A coerência formal de Brasília acabaria se mostrando demasiadamente estática para suportar o dinamismo e a complexidade do desenvolvimento urbano. Já na década de 1960, começaram a surgir as primeiras indicações do que Rem Koolhaas verificou em meados da década de 1990, a saber, que havia um conflito “entre a lentidão da arquitetura e a volatilidade do mercado”. A discrepância entre o ritmo das máquinas e aquele dos seres humanos preocupava os utopistas urbanos nas décadas de 1960 e 1970. Yona Friedman publicou o manifesto La Architecture Mobile em 1958 e, em 1960, La Ville Spatiale. Friedman imaginou uma megaestrutura ou, em outras palavras, uma cidade que se adequasse à realidade industrial. Essa cidade seria capaz de se adaptar flexívelmente aos movimentos e às exigências de seus usuários. Uma estrutura estática sobre suportes elevados seria estendida acima das cidades existentes, criando uma infraestrutura dentro da qual as partes individuais poderiam ser continuamente alteradas. Cedric Price perseguiu metas semelhantes em Londres na década de 1960. Seu projeto Fun Palace – um precursor do Centro Georges Pompidou – era também uma megaestrutura flexível que se destinava a reativar culturalmente o norte de Londres, que estava marcado pelo declínio industrial e pelo desemprego. Pouco tempo depois, Ron Herron deu continuidade aos projetos de Price. Na revista Archigram, ele desenvolveu um plano para uma Cidade Ambulante, que previa cidades móveis e altamente planejadas que seriam capazes de se mover pelo mundo e oferecer seus serviços. A cidade já não deveria ser estruturada de acordo com e em torno de rotas de transporte devendo, ao contrário, tornar-se essa dita rota, em si mesma e por si só.

CORPOS EM ALIANÇA E A POLÍTICA DA RUA

Nos últimos meses ocorreram, repetidamente, manifestações em massa nas ruas, nas praças, e embora estas sejam muitas vezes motivadas por propósitos políticos diferentes, algo semelhante acontece: corpos se reúnem, se movem e falam em conjunto, e reivindicam um certo espaço como espaço público. Agora, seria mais fácil dizer que essas manifestações ou, de fato, esses movimentos, se caracterizam por corpos que se reúnem para fazer uma reivindicação em um espaço público, mas essa formulação pressupõe que o espaço público seja dado, que já seja público e reconhecido como tal. Perdemos algo da finalidade das manifestações públicas, se deixamos de perceber que há uma disputa e até mesmo uma luta quanto ao próprio caráter público do espaço, quando essas multidões se reúnem. Então, embora esses movimentos tenham dependido da existência prévia da calçada, da rua e da praça, e tenham muitas vezes se reunido em praças, como a Praça Tahrir, cuja história política é potente, é igualmente verdadeiro que as ações coletivas coletam o próprio espaço, reúnem a calçada e animam e organizam a arquitetura. Por mais que precisemos insistir na existência de condições materiais para a reunião pública e para o discurso público, precisamos também perguntar como é que a reunião e o discurso reconfiguram a materialidade do espaço público, e produzem, ou reproduzem, o caráter público daquele ambiente material. E quando as multidões se movem fora da praça, para as ruas laterais ou o becos, para os bairros onde as ruas ainda não são asfaltadas, então algo mais acontece. Nesse momento, a política já não é definida como o assunto exclusivo da esfera pública distinta de uma esfera privada, mas cruza repetidamente essa linha, chamando a atenção para o modo como a política já está no lar, ou na rua, ou no bairro, ou de fato naqueles espaços virtuais que não são delimitados pela arquitetura da praça pública. Então, quando pensamos sobre o que significa reunir-se em uma multidão, uma multidão crescente, e o que significa mover-se através do espaço público de um modo que conteste a distinção entre público e privado, vemos de alguma forma que os corpos  em sua pluralidade reivindicam o que é público, encontram e produzem o público mediante a captura e a reconfiguração da questão dos ambientes materiais; ao mesmo tempo, aqueles ambientes materiais fazem parte da ação, e eles próprios agem quando se tornam o suporte para ação. Da mesma forma, quando caminhões ou tanques de repente se tornam plataformas para oradores, então o ambiente material é ativamente reconfigurado e “refuncionado”, para usar o termo brechtiano. E nossas ideias de ação precisam, então, ser repensadas. No primeiro caso, ninguém mobiliza uma reivindicação por movimento e reunião livres sem se mover e reunir com outros. No segundo caso, a praça e a rua não são apenas os suportes materiais para a ação, mas fazem parte, eles próprios, de qualquer teoria de ação pública e corpórea que possamos propor. A ação humana depende de todo tipo de apoio – é sempre uma ação apoiada. No caso das reuniões públicas, porém, vemos claramente que não só há uma luta sobre o que será espaço público, mas uma luta também quanto àquelas formas básicas nas quais estamos, como corpos, apoiados no mundo – uma luta contra a privação de direitos, o apagamento e o abandono.

É claro que isso produz um dilema. Não podemos agir sem apoio e, ainda assim, precisamos lutar pelos apoios que nos permitem agir.

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CORPOS INFORMATICOS

Corpos Informáticos não faz intervenção urbana – faz composição urbana…. Se arte é vida, ela compõe e se decompõe. Nas ruas e nos becos, ela desenvolve desordem para que o transeunte se torne um andarilho.

(Bia Medeiros, membro fundadora da Corpos Informáticos)

http://www.corpos.org/
http://corpos.blogspot.com/

CULTOS  

“As pessoas não se juntam a cultos; elas são enganadas para que se associem a algo que lhes é apresentado de maneira deturpada. Ninguém precisa ‘despertar’. Membros de culto não estão dormindo. Na verdade, eles estão mais hipervigilantes, pois cometer um erro tem consequências terríveis em um ambiente de culto. Roach tinha carisma, sem dúvida. Mas a vida de um membro comum do culto é maçante e aborrecida. Os rituais adicionam alguma excitação. As pessoas não rompem com cultos, na verdade há uma dissolução gradual de si mesmo. A maioria dos membros do culto sai voluntariamente. A idealização pode ajudar a explicar a primeira parte do envolvimento com o culto, mas as pessoas ficam porque são treinadas para ter medo através do processo de doutrinação. Sim, os membros de cultos são considerados, principalmente pela imprensa e por pessoas que deveriam saber que não é o caso, como estúpidos ou não inteligentes. Mas todos os cultos bem-sucedidos usam manipulação física e emocional, e a inteligência não vai proteger você contra isso. Tente tomar boas decisões quando estiver privado de sono e de proteínas.

http://psyris.com/cultspecialist

CUPINS

Os cupinzeiros tiram proveito das correntes para resfriar o interior da colônia. E ainda mais notavelmente, ao longo do dia os cupins trabalhadores de abrirão e fecharão seletivamente certos túneis para controlar o fluxo de ar e regular a temperatura interna. Isso é importante não apenas para gerenciar a temperatura dos berçários, mas também, em muitos casos, dos jardins de fungos. Muitas espécies de cupins criam fungos do gênero Termitomyces, os quais obtêm nutrientes do excremento dos cupins. As colônias dessas espécies cultivadoras de fungos contêm câmaras agrícolas/latrinas cuja temperatura é cuidadosamente controlada e onde cresce o fungo.

Há alguns anos, o governo brasileiro financiou um estudo para determinar e possivelmente replicar a estrutura química dos montes, com o olhar para o uso da substância como base para leitos carroçáveis.

.D.

DE OUTROS ESPAÇOS: UTOPIAS E HETEROTOPIAS

O espaço no qual vivemos, pelo qual somos atraídos para fora de nós mesmos, no qual decorre precisamente a erosão de nossa vida, de nosso tempo, de nossa história, esse espaço que nos corrói e que nos sulca é também, em si mesmo, um espaço heterogêneo. Em outras palavras, não vivemos em uma espécie de vácuo, dentro do qual poderíamos colocar indivíduos e coisas. Não vivemos em um vácuo que poderia ser colorido com diversos tons de luz, vivemos dentro de um conjunto de relações que delineia sítios que são irredutíveis uns em relação aos outros e que absolutamente não podem ser sobrepostos uns aos outros.

http://web.mit.edu/allanmc/wSww/foucault1.pdf

DEEPFAKE  

Um deepfake é o conteúdo, gerado por uma inteligência artificial, que é autêntico aos olhos de um ser humano. A palavra deepfake é uma combinação das palavras ‘deep learning’ (aprendizado profundo) e ‘fake’ (falso), e se refere principalmente a conteúdo gerado por uma rede neural artificial, um ramo do aprendizado de máquina. A forma mais comum de deepfakes envolve a geração e manipulação da imagem humana. Essa tecnologia tem aplicações criativas e produtivas. Por exemplo, dublagem realista de vídeo de filmes estrangeiros, educação através da reanimação de figuras históricas, e provador virtual de roupas durante compras. Há também inúmeras comunidades online dedicadas à criação de memes de deepfake para entretenimento, como vídeos musicais retratando o rosto do ator Nicolas Cage. No entanto, apesar das aplicações positivas de deepfakes, a tecnologia tem má fama por seus aspectos antiéticos e maliciosos. No final de 2017, um usuário do Reddit sob o nome “deepfakes” estava usando aprendizado profundo para colocar rostos de celebridades em vídeos pornográficos, e os estava postando online. A descoberta causou um frenesi na mídia e um grande número de novos vídeos de deepfake começou a surgir depois disso. Em 2018, o BuzzFeed divulgou um vídeo falso do ex-presidente Barack Obama dando uma palestra sobre o assunto. O vídeo foi feito usando o software do usuário do Reddit (FakeApp), e deu origem a preocupações quanto a roubo de identidade, personificação e propagação de desinformação em mídias sociais. Em seguida a esses eventos, o tema dos deepfakes ganhou força na comunidade acadêmica, e a tecnologia tem avançado rapidamente ao longo dos últimos anos. Desde 2017, o número de artigos publicados sobre o tema subiu de 3 para mais de 250 (2018-20).

https://arxiv.org/pdf/2004.11138.pdf

*Veja URBANISMO DEEPFAKE (Entrada futura)

DESURBANISMO

Moradia Pública para 100 Pessoas (1930) – Desurbanismo

“O crescimento excepcional da força, qualidade, quantidade e velocidade dos meios de transporte mecânico agora permite a separação dos centros: o espaço é aqui medido pelo tempo. E esse tempo está começando, ele próprio, a ser encurtado.

A revolução no transporte, a automobilização do território, reverte todos os argumentos habituais sobre a inevitabilidade do congestionamento e da aglomeração de edifícios e apartamentos.

Perguntamos a nós mesmos, onde vamos reassentar toda a população urbana e as empresas? Resposta: não de acordo com o princípio da aglomeração, mas de acordo com o princípio do máximo de liberdade, facilidade e velocidade de comunicação possível.

Todas essas funções ligadas formam um único complexo organizacional. A cidade, contudo, também era um complexo. Tendo destruído uma forma da cidade, não estaríamos criando uma nova cidade? Se você gosta de uma briga sobre terminologia, que este complexo seja uma cidade.

Vamos chamá-lo, digamos, a cidade vermelha do planeta do comunismo.

Mikhail Okhitovich, “Sobre o Problema da Cidade

DUPLITETURA

Venice Water Town Hangzhou, scale slightly different to the original

A duplitetura é uma cópia intencional e funcional de uma peça de arquitetura pré-existente e muitas vezes familiar. Por exemplo, “a replicação de Veneza em Hangzhou leva a duplitetura ao nível da cidade”.

Alguns exemplos na China, o local de inspiração do termo, incluem uma Torre Eiffel em Hangzhou e a “Cidade do Tâmisa” de Xangai. Indo desde estruturas únicas a comunidades inteiras, a duplitetura se distingue de meros modelos ou miniaturas (que são comuns em parques temáticos ou instituições históricas) pelo seu uso – a duplitetura não é decorativa ou meramente artística.

O termo foi cunhado por Bianca Bosker em seu livro de 2013, Original Copies: Architectural Mimicry in Contemporary China. Ela ressalta que, embora a China seja notória por violar propriedade intelectual (no caso de itens de tecnologia do consumidor e de moda, bem como de duplitetura), copiar não é considerado ruim em si mesmo. Na tradição estética chinesa, criar uma boa cópia é algo valioso e respeitável, não apenas como uma excelente ferramenta de aprendizagem, mas como uma demonstração de capacidade técnica.

Em seu artigo para a Wired, “Imitation Can Be the Sincerest Form of Innovation“, Clive Thompson cita um estudioso de arte chinês, comparando uma boa cópia a “um ganso selvagem que voa junto com seu companheiro”. Thompson também ressalta que mesmo a “absoluta falsificação de obras de arte” nunca foi considerada um crime tão terrível na China como é no Ocidente. Ele prossegue, citando Bosker: “As pessoas nos EUA olham para cópias desses edifícios e dizem: ‘Que falta de originalidade!’ Mas na China eles dizem: “Isso não é incrível? Olha o que fizemos! Nós fizemos a Torre Eiffel!'”

É claro que as linhas traçadas pelo ser humano separando os conceitos de tributo, homenagem, alusão, referência, cópia, plágio e duplicação são facilmente borradas – para alguns, copiar é até uma virtude religiosa.

https://archinect.com/news/article/114120516/archinect-s-lexicon-duplitecture

 

.F.

FÁBULA DE UM ARQUITETO

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.

O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

2.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

(Melo Neto 1968)

FICÇÕES DE TODOS OS TIPOS

Tudo está se tornando ficção científica. Das margens de uma literatura quase invisível surgiu a realidade intacta do século XX. […] Considerando seu tema, sua ávida aceitação da ingenuidade, do otimismo e da possibilidade, o papel e a importância da ficção científica só podem aumentar. Acredito que a leitura da ficção científica deveria ser obrigatória. Felizmente, a obrigatoriedade não será necessária, pois mais e mais pessoas estão lendo voluntariamente. Mesmo a pior ficção científica é melhor, usando como parâmetro de mérito a mera sobrevivência de seus leitores e de sua imaginação, do que a melhor ficção convencional. O futuro é uma chave melhor para o presente do que o passado.

JG BALLARD – http://www.jgballard.ca/non_fiction/jgb_fictions.html

.G.

G

GAGARIN, YURI

O presidente Jânio da Silva Quadros (esquerda) e o prefeito Yuri Alekseyevich Gagarin (esquerda). Em 3 de agosto de 1961 Jânio condecorou o astronauta russo com a Ordem do Cruzeiro do Sul – a mesma honraria que concedeu a Che Guevara 15 dias depois.

.H.

H

.I.

IMAGENS DE CORPOS

Ultimamente, os scanners 3D têm sido implantados como uma nova tecnologia da verdade. Equipamentos de varredura 3D estão sendo usados para o trabalho policial, a fim de investigar homicídios, acidentes e explosões e também para investigar o paradeiro de pessoas desaparecidas. Os scanners 3D geram nuvens de pontos, medições no espaço virtual que, por sua vez, podem ser impressas e renderizadas sob a forma de objetos 3D.

Um scanner de lidar captura dados por meio da refração de laser, luz branca ou infravermelha. Nas palavras de um dos principais fabricantes, ele: “(mede) uma cena com um extraordinário nível de velocidade, precisão e completude”,  e a transforma em uma nuvem de pontos no espaço virtual. Os pontos correspondem a medições locais.

Para citar alguns trechos do site da Leica Geosystems: “Esta tecnologia é usada globalmente pelas agências de aplicação da lei para investigação de cenas de crime, avaliação de vulnerabilidades e ameaças, investigação pós-explosão, inquéritos de ação policial, investigações de acidentes e muito mais.”

O ScanStation é objetivo e mede completamente tudo o que pode “ver”, para análise e diagramação posteriores.”

Nessa terminologia, reconhecemos imediatamente muitos clichês que são comuns nas discussões mais tradicionais quanto a evidências documentais. A nova tecnologia promete todas as coisas que a representação documental prometeu, desde então: objetividade, representação plena e verdadeira dos eventos, só que desta vez aumentada por uma dimensão adicional. Uma nuvem de pontos 3D não é mais uma imagem achatada, à qual faltam profundidade e extensão. É uma cópia com um volume, replicando com precisão o formato do objeto inicial.

Então, o que significa a noção de documentário, se aplicada à replicação 3D de objetos e situações? Qual é, então, a relação das tecnologias 3D com as ideias tradicionais de evidência documental? Como as noções de verdade documental são atualizadas ou deslocadas por tecnologias 3D? Como a capacidade de criar reproduções 3D afeta ideias sobre a verdade documental? O que significa substituir a representação por replicação?

Hito Steyerl: https://www.eipcp.net/e/projects/heterolingual/files/hitosteyerl/index.html

ISOMORPHISM

A poesia concreta brasileira foi lançada por Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, que na época mal tinham 20 anos de idade. Esses jovens poetas talentosos e ambiciosos lançaram, em 1958, o “Plano Piloto para Poesia Concreta“, um manifesto cujo título e espírito espelhavam a estética modernista do estilo internacional na arquitetura e celebrava a construção de Brasília. Opondo-se a uma vaga “poesia de expressão” que havia prosperado no pós-guerra (a chamada Geração de 1945), a poesia concreta colocava especial ênfase nos elementos materiais da linguagem, deixando de lado o conceito da linha de verso e substituindo-a por arranjos visuais de palavras em uma página, que poderiam ser lidos em qualquer direção. Esse movimento tentou substituir um modo discursivo da linguagem por um método “ideogrâmico” de composição poética. Conforme declarado no “Plano Piloto para a Poesia Concreta“:

poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico-formal), a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutura.
espaço qualificado: estrutura espácio-temporal, em vez de desenvolvimento meramente temporístico-linear.

Além disso, em vez de defender uma visão da linguagem que cegamente concordava com a divisão saussureana entre significante e significado, a poesia concreta brasileira visava remotivar a linguagem mediante a integração de som, imagem e significado no mais alto grau, uma abordagem “verbivocovisual” onde nenhum elemento único é privilegiado. A correspondência estrita que eles buscavam entre esses elementos poderia ser denominada “isomorfismo”, ou similaridade de formas. A forma, em outras palavras, aspirava a refletir o conteúdo: “ao conflito de fundo-e-forma em busca de identificação, chamamos de isomorfismo”.

Em artigo publicado em 1957, um ano antes do “Plano Piloto”, Haroldo de Campos havia elaborado sobre a noção de isomorfismo como resultado de uma evolução da fenomenologia da composição para uma mais avançada “matemática” da composição: ” a passagem da fenomenologia da composição à matemática da composição coincide com uma outra passagem: a do orgânico-fisiognômico para o geométrico-isomórfico”; esse estágio avançado efetivamente implicaria em “eliminação do poema descritivo: o conteúdo do poema será sempre sua estrutura”.

Odile Cisneros: https://www.erudit.org/fr/revues/ttr/2012-v25-n2-ttr0844/1018802ar.pdf

.J.

JULIETA GUIMARÃES COSTA

Enquanto Brasília era inicialmente aclamada por sua escala e visão futurista, mais tarde foi alvo de duras críticas como sendo uma cidade sem alma, cujas grandes avenidas eram perigosas para pedestres. Lúcio Costa sentiu-se impelido a defender seu trabalho.
“Não vale a pena sair de seus cuidados para visitar Brasília se vocês já têm opinião formada e idéias civilizadas preconcebidas”, escreveu certa vez. “Fiquem onde estão. Digam o que quiserem, Brasília é um milagre.”

Lúcio Costa gradualmente se retirou da vida pública após 1956, quando sua esposa, Julieta, morreu em um acidente de carro após ele adormecer ao volante. Nos últimos anos, o arquiteto sofria de glaucoma e cataratas e estava gradualmente perdendo a visão, disse sua filha, Maria Elisa Costa.
“Não, eu sou apenas uma pessoa”, ela se lembrou de seu pai respondendo.

https://www.nytimes.com/1998/06/16/arts/lucio-costa-is-dead-at-96-planned-futuristic-brasilia.html

.K.

KUBITSCHEK, JUSCELINO

.L.

LISPECTOR, CLARICE

Clarice Lispector nasceu em 1920 de uma família judia no oeste da Ucrânia. Como resultado da violência antissemita que sofreram, a família fugiu para o Brasil em 1922, e Clarice Lispector cresceu em Recife. Após a morte de sua mãe, quando Clarice tinha nove anos, ela se mudou para o Rio de Janeiro com o pai e duas irmãs, e mais tarde passou a estudar Direito. Com o marido, que era do serviço diplomático, viveu na Itália, na Suíça, na Inglaterra e nos Estados Unidos, até que se separaram e ela voltou para o Rio em 1959; foi ali que morreu, em 1977. Desde sua morte, Clarice Lispector conquistou reconhecimento universal como a maior escritora moderna do Brasil.

“Se para muitos brasileiros ela é o ícone de sua literatura nacional, para mim, ela a escritora judia mais importante desde Kafka. Ela é a mulher que questionou e respondeu todas as questões judaicas essenciais: acerca da beleza e do absurdo de um mundo no qual Deus está morto, e dos malucos que estão determinados a encontrá-Lo de qualquer forma.

Essa grande figura é bastante celebrada no Brasil e na América Latina. Seu rosto sedutor adorna selos postais. Seu nome empresta classe a condomínios de luxo. Suas obras são vendidas em distribuidores automáticos em estações de metrô. Um admirador espanhol escreveu que todos os brasileiros educados e com uma certa idade conheceram-na, estiveram em sua casa e têm a contar alguma anedota a respeito dela, como os argentinos com Borges.”

– Benjamin Moser

.M.

MODERNISMO NACIONALISTA

“Brasília ou Maracangalha*?”

“Lúcio, apesar de sua imaginação criadora […], tende a ceder aos anacronismos […] No seu plano, prevê ao longo do eixo monumental da cidade, acima do setor municipal, além das ‘garagens da viação urbana seguindo um anel viário e os quartéis seguindo o outro’ (citando o arquiteto). (Mas Pedrosa exclama:) Que quartéis são esses? São mesmo, segundo ele, os quartéis de tropa do Exército […] (E ele continua:) Primeiro, é de se perguntar: para que esses quartéis dentro da cidade? Segundo, quais são as funções específicas dessas tropas, quando a Nova Capital […] se acha ao abrigo de um súbito desembarque inimigo e só pode ser alcançada pelo ar? Destacar tropa de terra para a sua defesa não encontra nenhuma justificativa militar […] A não ser que essas tropas não se destinassem a defendê-la contra inimigos externos, mas em certos momentos reputados oportunos, a passar seus tanques, a modo tão nosso conhecido, pelo eixo central da cidade, a fim de fazer efeito sobre os próprios habitantes e pesar […] sobre a deliberação de um ou mais poderes da República. Mas então para que mudar? Para que Brasília? Para que sonhar com utopias?”

https://globalbody.home.blog/2020/04/10/nationalist-modernism-brasilia-or-maracangalha/

MODULO

Oscar Niemeyer. Modulo. 9 1958, 2

.N.

NEIVA, TIA

De acordo com a narrativa popular das origens do Vale, Tia Neiva era uma jovem viúva com formação de terceira série e quatro filhos pequenos quando se mudou para Brasília, em 1957, para trabalhar como motorista de caminhão na capital ultramoderna então em construção. Logo depois, ela começou a sofrer de alucinações visuais e auditivas que persistiram até sua morte em 1985. Inicialmente aterrorizada por essas “visões de seres iluminados, visões de seres deformados, desequilíbrio, conflitos”, como um tratado doutrinário os descreveu, Tia Neiva logo se convenceu de que eram visitas de vários seres espirituais e extraterrestres, entre eles Pai Seta Branca e sua contraparte feminina, Mãe Yara. No curso de seu contato com esses e outros “espíritos de luz”, Tia Neiva alegou receber ensinamentos esotéricos sobre a origem – e o eventual destino – extraterrestre da humanidade no longínquo planeta Capela. Seguindo as orientações de Pai Seta Branca, Tia Neiva estabeleceu uma pequena comunidade espiritual em 1959. Dez anos depois, após a dissolução daquele grupo e convencida de que havia sido escolhida para preparar a humanidade para uma nova era chamada de Terceiro Milênio ou Era de Aquário, Tia Neiva, juntamente com Mario Sassi, fundou o Vale do Amanhecer.

– Kelly E. Hayes, “Viajantes Intergalácticos do Espaço-Tempo, Vislumbrando a Globalização no Vale do Amanhecer do Brasil”

NIEMEYER E AS MÁSCARAS


In Niemeyer and Costa Masks, Architects Protest the City of Brasilia, © Danilo Verpa/Folhapress

Com máscaras de Niemeyer e Costa, arquitetos protestam contra a Cidade de Brasília, © Danilo Verpa/Folhapress

Usando máscaras com os rostos de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, arquitetos e urbanistas lotaram nesta semana a 50ª Premiação Anual do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) no Rio de Janeiro. Os arquitetos protestavam contra um contrato que a prefeitura de Brasília firmou com uma empresa de Cingapura para criar um plano diretor urbano delineando os próximos 50 anos do futuro de Brasília.

Os manifestantes, que argumentam que qualquer revisão urbana da cidade deveria ser realizada pelos próprios brasileiros, entoaram em homenagem ao falecido Oscar Niemeyer: “Niemeyer, sim! Brasília by Cingapura, não!”

http://www.archdaily.com/318939/in-niemeyer-and-costa-masks-architects-protest-the-city-of-brasilia/

NIEMEYER EM ISRAEL E PALESTINA

De um artigo de Adam Curtis sobre a luta étnica de 100 anos e as visões utópicas conflitantes na Palestina. Niemeyer mais tarde contribuiria para o planejamento da arquitetura de Tel Aviv e do Centro Dizengoff.

A partir da década de 1930, os israelenses começaram a tentar construir na Palestina o novo tipo de sociedade sionista que Theodor Herzl havia estabelecido em seu romance Altneuland – The Old New Land. A nova capital chamava-se Tel Aviv – que foi o título hebraico dado ao romance de Herzl por seu tradutor. Significa mais ou menos “uma nova primavera vinda de um velho monte”.

A nova cidade foi construída como uma grande experiência de planejamento urbano. Foi baseada em planos elaborados pelo urbanista escocês, Patrick Geddes. Suas ideias sobre como as cidades podiam ser planejadas vinham das mesmas tradições utópicas que a crença de Herzl em uma sociedade socialista planejada. O que os ligava era a crença tecnocrática que floresceu na década de 1930 – e novamente na década de 1950 – de que se poderia moldar o ambiente em torno dos seres humanos como um sistema total que os tornaria seres humanos mais fortes, mais confiantes e moralmente melhores.

Era um sonho grandioso. Aqui está Patrick Geddes.

E aqui está a cidade utópica que foi construída de acordo com seus planos – era chamada de “A Cidade Branca”. Muitos dos arquitetos que realmente a projetaram haviam sido treinados na década de 1930 na escola Bauhaus e foram profundamente influenciados pelas ideias de Le Corbusier. Um panfleto descrevia as ideias por trás disso:

“A cidade é um laboratório experimental para a implementação de princípios modernos de planejamento e arquitetura, e influenciou o país inteiro.

O plano foi baseado na ideia de criar um novo lugar para uma nova sociedade, onde o ideal sionista se tornaria realidade através do Movimento Moderno. É também uma síntese entre as culturas oriental e ocidental.”

NIEMEYER: O FUTURO É GRUMOSO

[O] problema começa. É um problema com o qual os seguidores de Niemeyer estão familiarizados, especificamente a disjunção entre a ideia e a execução. Em Brasília você raramente sente que isso é um problema, tal é a qualidade da construção e da manutenção. Mas aqui, essa é a principal coisa que você sente. A rampa que leva à cúpula maior é um caso em questão. A ideia é bastante clara, uma linha desenhada traduzida em concreto. Seu gesto arrebatador da caneta transformado em 3D. Mas a execução em concreto é repleta de caroços e protuberâncias que podem ser vistos à distância. De perto, a rampa tem uma qualidade altamente irregular e é, algumas partes, bastante angular, uma representação do processo de construção. O mesmo é verdadeiro para todos os grandes edifícios daqui: uma forma pura no papel se transforma em um exercício malsucedido na realidade. É o futuro refeito como um projeto de arte de escola primária.

A questão é, isso importa? Até onde eu pude ver em minha conversa com Niemeyer, não. Focalizar nos detalhes seria entender mal a escala de sua imaginação. Sua arquitetura era uma representação de um mundo ideal que chegaria em algum momento indeterminado no futuro, e no qual esses pequenos detalhes seriam resolvidos.

https://richardjwilliams.net/2013/11/10/niemeyer-the-future-is-lumpy/

.O.

O ARQUITETO COMO UM SER TOTALITÁRIO

“A linguagem de Le Corbusier revela sua mentalidade perturbadoramente totalitária. Por exemplo, naquele que talvez seja seu livro mais influente, Towards a New Architecture, de 1924 (o próprio título sugere que o mundo estivera à sua espera), ele poeticamente escreve:

Nós precisamos criar um estado de espírito de produção em massa:

Um estado de espírito para a construção em massa de moradia.
Um estado de espírito para habitar a moradia produzida em massa.
Um estado de espírito para conceber moradias produzidas em massa.
Quem seriam esses “nós” de quem ele fala de modo tão leviano, responsáveis por criar, entre outras coisas, estados de espírito universais? Somente uma resposta é possível: Le Corbusier e seus discípulos. Todos os demais têm “olhos que não veem…”

Aqui estão mais algumas pérolas:

Precisamos providenciar o estabelecimento de padrões para que possamos enfrentar o problema da perfeição.
O homem precisa ser construído sobre esse eixo [de harmonia], em perfeita concordância com a natureza e, provavelmente, o universo.
Precisamos encontrar e aplicar novos métodos, métodos claros, que nos permitam elaborar planos úteis para o lar, que se prestem naturalmente à padronização, à industrialização e à taylorização.
O plano precisa dominar… A rua precisa desaparecer.

E há, ainda, essa afirmação similar: “A parede de alvenaria já não tem o direito de existir.”

http://www.city-journal.org/html/architect-totalitarian-13246.html

OPERAÇÃO DOM BOSCO

Na imagem, JK e Israel Pinheiro com a chave de Brasília, Brasília, 20 de abril de 1960. Arquivo Nacional. Fundo Agência Nacional.

A Operação Dom Bosco (apelidado de pelo jornalista e historiador Jarbas Silva Marques) foi uma manobra  política criada  pelos  mudancistas  goianos  Germano Roriz e  Segismundo de Araújo Melo e pelo governador de Goiás, José Ludovico de Almeida,  para  assegurar a  construção da  capital  federal no Planalto Central  Brasileiro, como determinava o artigo 3º da primeira Constituição da República em 1891. Em 1883 o sacerdote italiano João Belchior Bosco narrou em sua obra Memórias Biográficas a respeito de um sonho no qual ele teria percorrido a América Latina guiado por um anjo que lhe mostrou um local escolhido por Deus. Muitos intérpretes acreditam que ele se localiza no coração do Brasil. Seria a nova Canaã, a terra prometida que mana leite e mel, a progenitora de uma nova civilização. Em 1960 nasce Brasília, abrilhantada por muitos discursos que se basearam neste sonho de Dom Bosco, na verdade, empregando-o como uma estratégia política para efetivação de seu projeto mudancista. Este fato foi claramente forjado pelos estadistas goianos, interessados na construção da nova capital em seu território. Mesmo antes de a capital ser inaugurada, ainda nos anos de sua construção, muitos grupos esotéricos começaram a se deslocar para a região acreditando nas profecias de Dom Bosco e na predestinação de Brasília como a capital do terceiro milênio.

A profecia da terra prometida que mana leite e mel: Dom Bosco e o misticismo em Brasília

OS TRÊS ESTÁGIOS DO TRANSE

Flugblatt of Basel 1566, part of Wickiana collection

“As imagens do século XVI no livro “Flying Saucers: A Modern Myth of Things Seen in The Sky” de C.G. Jung, mostram pontos negros e linhas (onduladas), os tipos de formas que muito se assemelham ao que é conhecido como fenômenos entópticos: efeitos visuais cuja fonte está no interior do próprio olho, como fosfenos.

David Lewis-Williams, professor de arqueologia cognitiva, e Thomas Dowson, em sua tentativa de classificar padrões abstratos em arte rupestre antiga, chegaram à conclusão de que formas abstratas e geométricas nesse tipo de arte são o registro artístico de fenômenos entópticos, como visto em estados alterados de consciência, como o transe, com ou sem o auxílio de substâncias psicodélicas. Eles chamaram a essas formas (como linhas onduladas, esferas, espirais e retículas) de “formas constantes”, já que são independentes de cultura.

Lewis-Williams e Dowson desenvolveram um modelo que chamaram de Três Estágios do Transe. O 1º estágio consistia em ver as mencionadas formas geométricas simples entópticas. Na 2ª etapa “os sujeitos tentam compreender as imagens entópticas, elaborando-as em formatos icônicos”, tendo como resultado visões mais complexas envolvendo entidades vivas como animais (míticos), duendes, elfos etc. Esses animais também são vistos na arte rupestre antiga, muitas vezes em combinação com os formatos simples do primeiro estágio. Os fenômenos visuais do 2º estágio são sempre culturalmente determinados.

No 3º estágio, os fenômenos se tornam tridimensionais, e tão vívidos que a pessoa que os experimenta deixa de usar símiles para descrever suas experiências, e afirma que as imagens são de fato o que elas parecem ser, e interagem com elas.”

.P.

PELE

A arquitetura de Oscar Niemeyer explora consistentemente uma determinada gama de variações nas escalas de fechamento/abertura e opacidade/transparência? Variações perceptíveis estão relacionadas a uma fase particular de sua obra, a temas arquitetônicos, às cercanias construídas ou naturais, ou a quaisquer outros aspectos? Como as escolhas do arquiteto afetam as pessoas no que tange aos vários aspectos de desempenho de sua arquitetura? – Frederico de Holanda

PLANETA PROIBIDO

PLANO PILÔTO

PÓS-EXOTISMO

• Nem revoluções nem sonhos acabam bem. É sobre isso, também; sobre nostalgia esmagada pelo bolchevismo que não se desmanchou; sobre apaixonados, violentamente inesquecíveis e jamais olvidados devaneios; sobre o amor em um vácuo; sobre horizontes em um vácuo; sempre ao alcance, sempre arruinados.

• O xamanismo implica uma mediação entre forças indescritíveis, conhecidas apenas pelo xamã, e uma clientela de mendigos, consulentes ansiosos e, às vezes, turistas que chegaram ali por acaso. A mediação toma a forma de um transe dançante e uma respiração. Não nos diga que o núcleo dos processos pós-exóticos e a base de sua relação com seus simpatizantes não podem ser encontrados ali.

• Destruir a realidade até que não reste uma só pedra, vivendo nas ruínas da realidade, depois abrindo caminho para receber, das ruínas, aqueles que sobreviveram.

• Divulgando imagens. Transmitindo imagens. Um grande número delas é em preto e branco, mas imagens em vez de palavras. Imagens fortes ao invés de linguagem inútil.

• Somos internacionalistas, cosmopolitas, contrários à discriminação, opositores fervorosos do capitalismo, e ainda que nossa derrota tenha tornado nosso programa mínimo temporariamente obsoleto, continuamos a ser membros de uma sociedade fundada no igualitarismo radical e fanático, sem qualquer tolerância para velhos patrões, e mergulhada não em sangue, mas em inteligência, liberdade e fraternidade.

http://thenewinquiry.com/essays/post-exotic-novels-n%C8%AFvelles-and-novelists-part-one/

PRIMEIRO HINO PARA BRASÍLIA

Estrela do Planalto Brasileiro
mais que estrela, novel constelação
despregada do azul do firmamento
e caída das campinas na amplidão…

Tua luz não é mais luz, pois incendeia
qualquer descrente que chega pra te ver;
e, em breve, o teu calor transformará
o derrotismo do ver pra então crer.

Brasília! Brasília!

.Q.

QUEERIFICAÇÃO DA ARQUITETURA

Falar de queerificação do espaço ou da arquitetura é falar de um gesto utópico, do que Henri Lefebvre descreveu uma vez como experimentar com a utopia: “a exploração das possibilidades humanas, com a ajuda da imagem e da imaginação, acompanhada de uma crítica incessante e de uma referência incessante à dada problemática no ‘real’”. Experimentar com a utopia é brincar com “variações imaginárias sobre temáticas e exigências definidas pelo real conforme entendido no sentido mais amplo; é ver os problemas colocados pela realidade e ver as ‘virtualidades contidas em seu interior’”.

O objetivo, neste caso, será então explorar imaginativamente as possibilidades de queerificação de espaço/arquitetura na confluência de três preocupações: o significado do pensamento e da prática queer, como resposta ao sexismo; a arquitetura como uma prática de criação de espaços que contribuam para a construção de identidades repressivas de sexo, gênero e sexualidade; o significado e a possibilidade de uma arquitetura libertadora tornada queer e capaz de tornar queer. O conceito que servirá para unificar essas três preocupações será aquele da matriz, das matrizes de gênero e espaço. Nossa pergunta, então, é: podemos imaginar o espaço arquitetônico de tal modo que se torne possível a queerificação de nossas vidas?

Carlos Jacques: https://autonomies.org/2016/10/struggles-for-space-queering-straight-space-thinking-towards-a-queer-architecture-4/

.S.

SILVA GUERRA, JOSÉ

SINTAXE ESPACIAL

A sintaxe espacial é uma abordagem baseada na ciência, focada no ser humano, que investiga as relações entre o layout espacial e uma gama de fenômenos sociais, econômicos e ambientais.
Esses fenômenos incluem padrões de movimento, consciência e interação; densidade, uso da terra e valor da terra; crescimento urbano e diferenciação social; segurança e distribuição de crimes.
Os pioneiros da sintaxe espacial na década de 1970 foram o Prof. Bill Hillier, a Profa. Julienne Hanson e colegas do The Bartlett, University College, de Londres. Hoje, a sintaxe espacial é usada e desenvolvida em centenas de universidades e instituições de ensino, bem como em escritórios profissionais por todo o mundo. Baseada em análise quantitativa e em tecnologia geoespacial computadorizada, a sintaxe espacial fornece um conjunto de teorias e métodos para a análise de configurações espaciais de todos os tipos e em todas as escalas.

De: https://www.spacesyntax.net/

SINUOSIDADES NEUROLÓGICAS E ARQUITETÔNICAS: OS IRMÃOS NIEMEYER

Em uma família de 7 irmãos no Rio de Janeiro, Brasil, duas das personalidades nacionais mais marcantes decidiram seguir diferentes campos no início do século XX. O trabalho de sua vida, no entanto, se cruzaria em pelo menos dois aspectos: a busca pela inovação e a paixão pela sinuosidade. As conquistas de Paulo e Oscar Niemeyer são marcos da história da neurocirurgia e da arquitetura no Brasil. Entre suas muitas inovações na neurocirurgia, Paulo Niemeyer descreveu pela primeira vez a amígdalo-hipocampectomia transventricular em 1957 e introduziu o microscópio cirúrgico à neurocirurgia no Brasil em 1971. Seu irmão Oscar tornou-se um representante mundialmente renomado do movimento da arquitetura moderna, esculpindo curvas graciosas do concreto.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20871456 Cavalcanti DD1, Guasti JA, Preul MC.

.T.

TEMPO DE BRASÍLIA

‘Tempo de Brasília’ não se refere apenas aos anos vividos na capital, mas à capacidade de ter suportado, ano após ano, dificuldades de todo tipo e, além disso, a capacidade de comprovar essas adversidades por meio de documentos cujo emblema e garantia é, por sua vez, um papel com o número de registro que todos carregam consigo. […]

Além de ser um conceito relacionado a um fenômeno cronológico, ou seja, a ‘criação de intervalos na vida social’, o ‘Tempo de Brasília’ refere-se à configuração do que chamei, inspirado por Charles Peirce, de uma comunidade de crenças. Durante cinco anos ou mais, em várias partes do Distrito Federal, milhares de pessoas esperam por essa metamorfose social, que irá ungi-las com o ‘Tempo de Brasília’ necessário para receber um lote. Durante essa espera, a própria crença na espera toma forma e, com ela, a aceitação coletiva de um hábito. Enquanto eles esperam pelo dia em que terão ‘Tempo de Brasília’, as raízes dessa crença penetram lenta e profundamente nos indivíduos.

[…] O ‘Tempo de Brasília’ diz respeito principalmente à profundidade e ao alcance desse envolvimento mútuo entre o governo e o povo. Individualmente, muitos duvidam que os lotes serão cedidos e que a espera vale a pena. No entanto, essas dúvidas não conseguem abalar a comunidade de crenças produzidas pelas inúmeras ações cotidianas que colocam pessoas comuns em contato com funcionários do governo, as primeiras com suas vidas em constante mudança e os últimos com as exigências mais recentes, os mais novos critérios de classificação do governo. Mais do que um item em uma equação estabelecida por engenheiros sociais, o ‘Tempo de Brasília’ é, em si, uma fórmula sintética derivada da vida neste lugar, caracterizada pela presença do governo no dia a dia de todos.

Sobre pessoas e variáveis: a etnografia de uma crença política por Antonádia Borges

http://socialsciences.scielo.org/scielo.php?pid=S0104-93132006000200004&script=sci_arttext

TESES SITUACIONISTAS NO TRANSITO

“Um erro cometido por todos os urbanistas é considerar o automóvel privado (e seus subprodutos, como a motocicleta) como essencialmente um meio de transporte. Na realidade, é o símbolo material mais notável da noção de felicidade que o capitalismo desenvolvido tende a espalhar pela sociedade. O automóvel está no centro dessa propaganda geral, tanto como um bem supremo de uma vida alienada quanto como um produto essencial do mercado capitalista. Querer redesenhar a arquitetura de acordo com as necessidades da atual existência massiva e parasitária dos automóveis particulares reflete a mais irrealista incompreensão de onde estão os problemas reais. Em vez disso, a arquitetura precisa ser transformada de acordo com todo o desenvolvimento da sociedade, criticando todos os valores transitórios ligados a formas obsoletas de relações sociais (no primeiro escalão das quais está a família). O rompimento da dialética do meio humano em favor dos automóveis (as rodovias projetadas em Paris implicarão na demolição de milhares de casas e apartamentos, embora a crise habitacional esteja continuamente piorando), mascara sua irracionalidade sob justificativas pseudopráticas. É praticamente necessário, contudo, apenas no contexto de uma configuração social específica. Aqueles que acreditam que as particularidades do problema são permanentes querem, de fato, crer na permanência da sociedade atual.”

– Guy Debord

TIÃOZINHO

.U.

UMA FICÇÃO DO MODERNO, POR LOUIDGI BELTRAME

Brasília foi o projeto de um político em busca de um legado arquitetônico. Quando Juscelino Kubitschek foi eleito presidente do Brasil em 1955, com o slogan “cinquenta anos de progresso em cinco”, acelerou um esquema nacional há muito planejado para situar a nova capital no interior do país, longe do Rio de Janeiro e da mortalha de seu passado colonial. Kubitschek encomendou um plano diretor para a nova capital a Lucio Costa, que recorreu ao arquiteto brasileiro Niemeyer para a concepção de todos os grandes edifícios. Vistos hoje, o Congresso Nacional, a Catedral, o Complexo Cultural e o Supremo Tribunal Federal de Brasília carregam, todos, a marca distinta de Niemeyer. São todos monumentais em escala, abraçando as formas sensuais e curvas pelas quais Niemeyer é famoso. Vista do ar, a cidade é um enorme mapa do Modernismo, com formas brancas hemisféricas repousando entre torres precisamente escoradas, e estruturas hiperboloides cercadas por praças perfeitamente planas e espelhos d’água impecáveis.

UMA MÁQUINA DE MORAR

“Eu acho que, como Vitruvius, essa arquitetura inclui tanto edifícios quanto máquinas, e penso que inclui paisagens, também. A noção de que as máquinas de algum modo escaparam da tirania dos edifícios é mais uma ilustração de como deve ter sido lá atrás nos tempos modernos – como estar em um avião decolando, agarrado aos braços do assento com o cinto de segurança apertado sobre seu estômago, e encarando sua própria mortalidade cara a cara, com sua mente em branco e seu pulso acelerado.

Máquinas de morar podem se referir a outra coisa. Não uma máquina, de qualquer modo, mas de fato uma analogia em si.”

.V.

VAGA – CIDADES EM FILME

Estamos em uma outra cidade, uma cidade de verdade. Esta cidade também é construída de concreto branco e vidro, com pontes feitas de aço reluzente e rodovias com múltiplas pistas revestidas de asfalto cinza liso. É também uma cidade de sonhos, de luz e ar e águas azuis límpidas. A cidade é Brasília no início da década de 1960. No entanto, a cidade que aparece nessas brilhantes cenas limpas é tão irreal quanto a cidade dos sonhos da Toyota e logo é substituída por cenas mais desoladoras do final dos anos 1990. Ambas as visões da cidade fazem parte do filme “Vaga” (1998), de Matthias Müller, que mescla filmes amadores e longas-metragens rodados em Brasília no início dos anos 60, com a exploração pessoal do artista quanto ao legado do Modernismo no centro amplamente abandonado da cidade no final dos anos 1990. ‘Vaga’ examina as discrepâncias entre ideologia e realidade, mediante a justaposição das imagens perfeitas da nova cidade com cenas filmadas quarenta anos depois. Em vez de documentário, o filme é uma jornada sentimental onde o otimismo jovial da era espacial se transformou em nostalgia e em um estranho e lírico senso de desolação. Vista através da câmera de Müller, a Brasília de 1998 não parece mais real que a Brasília de 1960. Como a cidade do comercial de carros, é totalmente imaginária – uma utopia, um não-lugar.

VENDO COMO UM ESTADO

“Os arquitetos europeus fornecem alguns dos casos mais extremos dessa obsessão patrocinada pelo Estado por reconstruir a sociedade do zero. No final da década de 1920, o famoso arquiteto francês Le Corbusier (1887-1965) foi contratado para projetar uma estrutura na nova capital da URSS. Para não ser contido, ‘Ele propôs, em planos preparados em apenas seis semanas, uma vasta reconstrução de Moscou.’ Sua ideia era um modelo de perfeição geométrica, com ruas retas se encontrando em ângulos retos, ao longo das quais os moradores podiam ser transportados todos os dias de seus colossais e retangulares edifícios de apartamentos para seus colossais e retangulares locais de trabalho.

Esse plano, porém, foi longe demais. Um crítico soviético ‘atacou a Moscou de Le Corbusier como uma ‘cidade de lugar nenhum, … uma cidade no papel, estranha à natureza viva, situada em um deserto através do qual nem mesmo um rio teria permissão de passar (já que uma curva iria contradizer o estilo).’’

Le Corbusier nunca chegou a ver seus próprios grandes planos para Moscou (ou Paris) realizados. Seus princípios de design, contudo, inspiraram Lúcio Costa, o arquiteto que planejou a nova capital do Brasil, Brasília. A construção em Brasília começou em 1957 ‘em um local vazio … a quase 1.000 quilômetros do Rio de Janeiro’. Este era ‘uma toalha de mesa limpa’, um lugar para começar de novo sem qualquer necessidade de comprometer-se com a vida humana existente.

‘A cidade foi então projetada a partir do zero, de acordo com um plano elaborado e unificado. Cada um dentre moradia, trabalho, recreação, trânsito e administração pública foi espacialmente segregado’. Costa planejou enormes praças vazias e quadradas para recreação, e gigantescos monumentos geométricos para a glorificação do Estado. Os urbanistas decidiram até mesmo quantos cidadãos residiriam em Brasília: 557 mil.

Quando as pessoas vieram morar na cidade recém-construída, porém, elas acharam essa paisagem perfeitamente legível profundamente desorientadora. “Comparado à vida no Rio e em São Paulo, com sua cor e variedade, o giro diário na sem graça, repetitiva e austera Brasília … parecia a vida em um tanque de privação sensorial. E os novos moradores até cunharam o termo brasilite — de ‘Brasília+ite’ — para descrever o efeito de viver lá.”

De: https://mises.org/library/seeing-state

VILLE RADIEUSE – A CIDADE RADIANTE

A historiografia europeia e norte-americana insiste muito voluntariamente na dívida externa que a arquitetura de Oscar Niemeyer tinha que incorrer em relação ao Movimento, começando por Le Corbusier. Brasília seria uma adaptação tropical da Ville Radieuse. E um desvio tropicalista da gramática puritana do estilo internacional. Esse olhar historiográfico omite uma diferença não só formal como também, ao mesmo tempo, histórica, cultural e política. […]

https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/12.142/4267

VLADIMIR CARVALHO

Vladimir by Walter Carvalho.

Vladimir, de Walter Carvalho.

Vladimir é um tesouro nacional. É cineasta e documentarista, nascido na Paraíba em 1935.

Carvalho era responsável pela Associação Brasileira de Documentaristas do Distrito Federal (ABD-DF), em Brasília, na época em que o Festival de Brasília foi suspenso e o Curso de Cinema da UnB havia sido interrompido. Na época, o trabalho da ABD-DF era dificultado pelos militares, e poucas pessoas ousaram fazer cinema na cidade, o que enfraqueceu muito a Associação.

Devido à falta de instituições preocupadas com a preservação da memória da capital do país, Carvalho, que morava em Brasília há pelo menos 40 anos, transformou sua casa no centro de Brasília em uma pequena cinemateca. Denominada Cinememória, foi fundada pelo cineasta em 1994 com o objetivo de manter e preservar seu trabalho documental ao longo de mais de 50 anos de atividade, e também os filmes feitos em Brasília e sobre Brasília. A pequena instituição nasceu para ser “uma provocação positiva” ao poder público, para que eles reflitam melhor sobre a importância da criação de uma cinemateca em Brasília.

A Fundação Cinememória tem 6.000 itens e uma biblioteca com 4.000 volumes. Durante sua vida, Vladimir Carvalho fez 23 filmes cujos negativos foram depositados na Cinemateca do MAM, no Arquivo Nacional e, a maioria deles, na Cinemateca Brasileira de São Paulo, para que pudessem ser guardados e eventualmente copiados para outros meios de comunicação e exibidos.

Porque aqui em Brasília eu posso no máximo guardar uma cópia de um filme temporariamente; eu estou arriscando ter o material no Arquivo Público do DF há mais de quinze anos. Nesse momento em que estou falando com você estou perdendo minhas cópias porque filme degenera como gente, o filme morre. Se for deixado um negativo sem condições climáticas, a imagem vai desaparecer e vai virar uma pasta. E eu posso lhe (sic) afirmar que em Brasília não tem um lugar onde filmes sejam resguardados dessas ameaças. Por isso eu criei isso aqui, para sinalizar. Tantas vezes eu possa falar, na imprensa, nas palestras que faço, chamo a atenção para isso. A cinematografia de Brasília existe desde que se colocou a pedra fundamental nessa cidade. Brasília foi partejada sendo filmada, mas não tem a sua cinemateca. A cinemateca, grosso modo, é o museu do cinema. Brasília não tem. Brasília não tem um museu, na verdade, digno desse nome. Tem um lugar que se chama Museu da República onde há um esforço de abnegados que tentam manter aquilo como se fosse um lugar de exposição, mas não tem um projeto de museu. Quem dirá o cinema, que fica um pouco à margem disso tudo!

Além disso, nem todos os filmes de Vladimir Carvalho foram transferidos para mídias digitais, o que seria um empreendimento muito caro.

De: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1809-58442020000100089&script=sci_arttext&tlng=en#B12

Filmografia:
Romeiros da Guia – 1962; A Bolandeira – 1967; Vestibular 70 – 1970; O País de São Saruê – 1971; Incelência para um Trem de Ferro – 1972; O Espírito Criador do Povo Brasileiro – 1973; O Itinerário de Niemeyer – 1973; Vila Boa de Goyaz – 1974; Quilombo – 1975; Mutirão – 1975; José Lins do Rego – 1975; A Pedra da Riqueza – 1976; Pankararu do Brejo dos Padres – 1977; Brasília Segundo Feldman – 1979; O Homem de Areia – 1982; O Evangelho Segundo Teotônio – 1984; Perseghini – 1984; No Galope da Viola – 1990; A Paisagem Natural – 1991; Conterrâneos Velhos de Guerra – 1991; Negros de Cedro – 1998; Barra 68 – 2000; O Engenho de Zé Lins – 2006; Rock Brasília – Era de Ouro – 2011

.W.

WHITE HEAT, GREY STONE

Godley And Creme – Brazilia (wish You Were Here)

White heat, grey stone
White heat, grey stone
White heat, grey stone
Wish you were here
White heat, sizzling
Thinking of Brazilia
White heat, sizzling
Thinking of Brazilia
White heat, grey stone
Thinking of Brazilia
White heat, hollow
Thinking of Brazilia
White heat, always
Wish you were here
Thinking of Brazilia
White heat, grey stone
White heat, grey stone
Lonely is Brazilia
White heat, hot, vast, crisp, empty
No more “Yariva, yariva”
Wish you were here
White heat, grey stone
Show me Brazilia
And I’ll show you no Mardi Gras
In the glass Cantina
White heat, grey stone
White heat, grey stone
White heat, grey stone
Is anybody there
White heat, sizzling, sizzling, sizzling, sizzling
Is anybody there
Is anybody there
Hello
Is anybody there
Brazilia
Wish you were here
Is anybody there?
Big mistake, Brazilia
Brazilia. Open air museum. Wish you were here.

.X.

X

Cruzamento dos Eixos Monumental e Rodoviário no início das obras em Brasília. Foto: Mário Fontenelle/Arquivo Público do Distrito Federal – 1956/1957

.Y.

YARA, MÃE

Mãe Yara, do texto de Chamish: “Há quarenta anos, Mãe Yara – uma sacerdotisa psíquica de 2 metros de altura que viveu até os 103 anos de idade – inspirou a construção de Brasília com suas visões de deuses do espaço.”

YOKAANAM, MESTRE

.Z.

ZAMENHOF, LÁZARO LUIZ

ZIZEK, SLAVOJ: O FIM DA UTOPIA

Em “Arquitetura e Antagonismo Social” Žižek pergunta: “como um edifício ideológico (aí incluídos edifícios arquitetônicos reais) lida com o antagonismo social?” Em um aparte, ele cita o caso do plano de Oscar Niemeyer para Brasília: “… esse sonho imaginário da resolução de antagonismos sociais que suplementa não a realidade dos antagonismos sociais, mas a falta de mecanismos ideológico-igualitários que os cobririam com uma aparência adequadamente funcional…”

“Precisamos ousar decretar o impossível. Precisamos redescobrir não como imaginar, mas como decretar, a utopia. A questão não é planejar utopias, a questão é praticá-las. E creio que não seja uma questão de “deveríamos fazê-lo, ou deveríamos simplesmente persistir com a ordem existente?”. É muito mais radical. É uma questão de sobrevivência. O futuro será utópico, ou não haverá futuro algum.”

 

 

*** Este Abecedarium foi inspirado na Brasília A-Z de Nicolas Behr

  • A METAFÍSICA DO CONCRETO
  • ALTERNATIVAS DE MODERNIDADE POR JAMES HOLSTON
  • AMBIENTES ATMOSFÉRICOS E MATERIAIS NO CINEMA DE MICHELANGELO ANTONIONI
  • ARQUITETURA DE RAIOS X
  • ARQUITETURA OU TECNO-UTOPIA?
  • BADIOU, ALAIN – LÓGICAS DOS MUNDOS
  • BEHRXILIA
  • BRASIL
  • BRASÍLIA, CONTRADIÇÕES DE UMA NOVA CIDADE
  • BRASÍLIA, OU A VISTA A PARTIR DE UM AUTOMÓVEL EM MOVIMENTO
  • BRASILIANIZAÇÃO DE BRASÍLIA
  • CAMINHANDO NO ESPAÇO
  • CARACTERES / PERSONAGENS
  • CARQUITETURA
  • CIDADE ECLÉTICA
  • CINEMA
  • CONCEITOS CONTRASTANTES DE HARMONIA NA ARQUITETURA
  • CONFLITO DAS VELOCIDADES VARIADAS
  • CORPOS EM ALIANÇA E A POLÍTICA DA RUA
  • CORPOS INFORMATICOS
  • CULTOS  
  • CUPINS
  • DE OUTROS ESPAÇOS: UTOPIAS E HETEROTOPIAS
  • DEEPFAKE  
  • DESURBANISMO
  • DUPLITETURA
  • FÁBULA DE UM ARQUITETO
  • FICÇÕES DE TODOS OS TIPOS
  • G
  • GAGARIN, YURI
  • H
  • IMAGENS DE CORPOS
  • ISOMORPHISM
  • JULIETA GUIMARÃES COSTA
  • KUBITSCHEK, JUSCELINO
  • LISPECTOR, CLARICE
  • MODERNISMO NACIONALISTA
  • MODULO
  • NEIVA, TIA
  • NIEMEYER E AS MÁSCARAS
  • NIEMEYER EM ISRAEL E PALESTINA
  • NIEMEYER: O FUTURO É GRUMOSO
  • O ARQUITETO COMO UM SER TOTALITÁRIO
  • OPERAÇÃO DOM BOSCO
  • OS TRÊS ESTÁGIOS DO TRANSE
  • PELE
  • PLANETA PROIBIDO
  • PLANO PILÔTO
  • PÓS-EXOTISMO
  • PRIMEIRO HINO PARA BRASÍLIA
  • QUEERIFICAÇÃO DA ARQUITETURA
  • SILVA GUERRA, JOSÉ
  • SINTAXE ESPACIAL
  • SINUOSIDADES NEUROLÓGICAS E ARQUITETÔNICAS: OS IRMÃOS NIEMEYER
  • TEMPO DE BRASÍLIA
  • TESES SITUACIONISTAS NO TRANSITO
  • TIÃOZINHO
  • UMA FICÇÃO DO MODERNO, POR LOUIDGI BELTRAME
  • UMA MÁQUINA DE MORAR
  • VAGA – CIDADES EM FILME
  • VENDO COMO UM ESTADO
  • VILLE RADIEUSE – A CIDADE RADIANTE
  • VLADIMIR CARVALHO
  • WHITE HEAT, GREY STONE
  • X
  • YARA, MÃE
  • YOKAANAM, MESTRE
  • ZAMENHOF, LÁZARO LUIZ
  • ZIZEK, SLAVOJ: O FIM DA UTOPIA